segunda-feira, 5 de abril de 2010

Capítulo 2 - Uma Herança que Incomoda Muita Gente


LEGADO DE PAIXÃO

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Tia Carmen discutiu durante todo o caminho de volta, tentando convencer a sobrinha que aquilo tudo era absurdo.
- Afinal de contas, o que uma garota da cidade entende de sítios? O que você vai fazer lá, Belinha, no meio daquela gente da roça e um monte de bichos?
Mas quando Isabela colocava uma idéia na cabeça ninguém tirava.
Eram apenas três meses de sacrifício, e depois disso poderia vender o tal sítio, terminar a faculdade sem problemas, e também dar uma vida melhor para a tia, que afinal de contas, bem que merecia.
Realmente, não entendia nada de vida rural. Era tão absolutamente urbana que nunca tinha visto uma galinha, muito menos uma vaca ou um porco de perto. Mas... Possuía disposição e boa vontade o bastante para aprender rapidamente o necessário para enfrentar aquilo que parecia um universo distante e totalmente desconhecido.
Bem no fundinho tinha a esperança de levar Cris junto. Aí sim, não seria sacrifício nenhum.
Mas se a reação da tia tinha sido ruim, pior ainda foi a da namorada:
- Se você for tá tudo acabado, tá me ouvindo?! Acha mesmo que eu vou ficar três meses aqui sozinha, esperando pela senhorita?
Isabela tentou usar a tática de sempre. Adoçou a voz, colou o corpo no de Cris, beijou-a com ímpeto, a ponto de ficarem sem ar e terem que se separar para respirarem. Subiu os lábios pelo pescoço dela, em direção ao ouvido, onde sussurrou, com o tom de voz mais irresistível possível:
- Ah, amor... Você sabe que sem você eu não vivo... Vem comigo...
Incrivelmente, pela primeira vez não funcionou:
- Nem morta! Você pode escolher: ou eu, ou esse sítio idiota!
Isabela ainda tentou explicar:
- Cris, você sabe que eu não posso, eu preciso do dinheiro.
Mas Cris estava irredutível:
- Não quero saber, faça a sua escolha!
Foi o bastante para Isabela perder o restinho de paciência que tinha. Gritou, brigou, discutiu. Depois pediu desculpas, se humilhou, suplicou. Inútil.
Cris repetiu:
- Ou eu ou o sítio.

***

Depois de ser expulsa da casa da namorada – ou melhor: ex-namorada, porque não abriu mão da herança, afinal, era a única chance que tinha de melhorar de vida - ficou andando pelo calçadão de Copacabana meio sem rumo, a cabeça a mil.
Chegou em casa já de noite, e se trancou no quarto sem querer falar com a tia. Enfiou a cabeça no travesseiro e chorou até dormir.
Passou o dia seguinte resolvendo coisas.
Trancou a faculdade, avisou no estágio que não iria mais, comprou a passagem, fez as malas...
De Tia Carmen foi a interminável choramingação para que ela não fosse, para que esquecesse:
- Essa última loucura da Guida!
De Cris nem telefonema, nem e-mail, nem torpedo, nem mensagem, nem nada.
Viajou com o coração apertado, sem o apoio de ninguém, se sentindo absolutamente sozinha. Como nunca, nem mesmo depois da morte dos pais, havia se sentido.
Mas não tinha como voltar atrás. Por isso, e só por isso, se manteve firme em sua decisão. Xingando mentalmente durante todo o caminho, por que:
- Se a intenção da tia Guida era bagunçar a minha vida inteira, com certeza, conseguiu!

***

A viagem em si não foi cansativa. Fisicamente não. Emocionalmente... Bom...
Sem dormir direito as duas últimas noites, arrasada por Cris ter terminado com ela, e sem saber ao certo o que a esperava, Isabela chegou exausta.
A vontade de gritar que sentia só aumentou quando viu o estado em que o sítio estava: velho, decadente, só não parecia abandonado porque tinha um senhor e duas moças coradas e risonhas esperando por ela na varanda em frente ao que parecia ser a porta principal.
Estendeu a mão, com o sorriso mais simpático possível:
- Oi. Eu sou a Isabela.
As duas moças responderam juntas, ou melhor: meio que dividindo a frase:
- É a sobrinha da Dona Guida, que Deus a tenha! Seja bem vinda!
De uma forma que fez Isabela se questionar se pensavam juntas, ou quem sabe, se dividiam o mesmo cérebro.
Arrependeu-se do pensamento maldoso na mesma hora, por que... As duas pareciam muito simpáticas. Ela é que estava azeda por tudo que tinha acontecido.
Esforçou-se em voltar a sorrir:
- Obrigada.
Elas se apresentaram:
- Nós somos Rosa e Janaína.
Mas Isabela continuou sem saber identificar uma da outra.
Completaram:
- Esse é o Roque.
O senhor fez um cumprimento simples com a cabeça, olhando para baixo. Isabela estendeu a mão, dizendo:
- Muito prazer.
Ele apertou a mão dela, ainda mais sem jeito. Depois se desculpou, como se quisesse sumir:
- Com licença, moça, tenho umas coisas pra fazer...
E saiu – ou melhor: fugiu - rapidinho. Parecia excessivamente tímido e reservado. Ao contrário das moças:
- Vamos entrando, dona Isabela.
Isabela foi atrás das duas, que tanto insistiram que carregaram todas as malas sozinhas.
Falavam sem parar sobre tia Guida, sua morte, o enterro, sempre daquela forma estranha de uma terminar a frase da outra.
A sala era mobiliada por uma mesa de jantar grande com seis cadeiras de madeira pesadas e antigas, um sofá e duas poltronas de couro e uma cristaleira que absolutamente não combinava com a rusticidade do resto, mas... Naquele momento, decoração era a última coisa na qual Isabela estava pensando.
Uma música sertaneja altíssima ressoava pela casa, provavelmente vinda da cozinha, fazendo a vontade de gritar voltar ainda mais forte, acompanhada pelo desejo de desistir de tudo e simplesmente fugir dali.
Mas disfarçou e controlou muito bem o que sentia. Continuou sorrindo para as duas, fingindo apreciar o tour pela nova moradia que a cada passo parecia mais e mais horrível.
As duas moças mostraram o resto da casa: cozinha, dois banheiros, dois quartos de hóspedes, o quarto da tia, que segundo exclamaram, juntinhas, estava:
- Exatamente como dona Guida - Deus a tenha! – deixou.
Finalmente, chegaram ao último quarto, preparado para Isabela. A única boa notícia, por que... De jeito nenhum ia ficar no quarto da “falecida”.
- Agora vamos deixar a senhorita descansar um pouco. A gente chama quando o almoço ficar pronto.
Enquanto elas depositavam as malas perto da cama, Isabela murmurou um automático:
- Obrigada.
Assim que as duas saíram fechando a porta, deixou escapar um profundo e desesperado suspiro.
Olhou desolada para o cômodo que nos próximos três meses lhe serviria de quarto: rústico, simples, com uma grande cama de casal que ocupava quase todo o espaço, duas mesinhas de cabeceira, cada uma com um abajur em cima, um armário também de madeira escura como todo o resto, e só.
Escancarou a cortina florida, deixando um pouco de claridade entrar. Riu, para não chorar, da música deprimente que continuava vindo da cozinha, enquanto abria a janela.
Olhou para a vista. Em qualquer outra situação, teria achado linda. Se estivesse acompanhada, ou de férias, seria perfeito, um verdadeiro idílio.
Porém, o chão plano, a se perder de vista, criou nela uma sensação de solidão terrível.
Ampliando a impressão de perda, de vácuo, de vazio.
Sentiu falta dos prédios, da poluição, das buzinas, de gente amontoada nas calçadas, dos engarrafamentos, do Cristo de braços abertos sobre a cidade, da tia e, principalmente, de Cris.
Deitou na cama pensando que provavelmente a essa hora a namorada deveria estar na praia de Ipanema, em plena Farme, exibindo o corpinho.
Enfiou a cara no travesseiro e começou a chorar. Completamente infeliz, como nunca tinha se sentido na vida.

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